Pedir um crédito para liquidar outro é uma prática que pode ser útil, mas é uma escolha que deve ser ponderada com cuidado. Em algumas situações, isso pode ajudar a eliminar dívidas com juros mais altos, simplificar o orçamento mensal ou ainda proporcionar uma melhor gestão das finanças. Contudo, também é possível que a nova dívida seja mais onerosa a longo prazo, aumentando a carga financeira e o risco de incumprimento. Por isso, é essencial avaliar se a nova modalidade de financiamento realmente reduz o custo total da dívida. A prestação mensal pode ser inferior, mas isso não significa que o crédito seja mais acessível. A análise deve incluir a taxa de juro, a TAEG, o prazo do crédito, os custos de amortização e a verdadeira capacidade de pagamento do devedor.
É Possível Usar um Crédito para Pagar Outro?
Sim, fazer um crédito para liquidar outro financiamento é uma opção viável. Muitas pessoas optam por este caminho para saldar cartões de crédito, empréstimos pessoais ou várias dívidas ao consumo. No entanto, isso não implica que esta decisão seja sempre a mais acertada. Se o novo crédito apresenta uma taxa de juro mais baixa e permite a liquidação total das dívidas anteriores, pode ser uma boa estratégia para reorganizar o orçamento. Por outro lado, se resultar num aumento do prazo, da taxa de esforço ou do custo total do crédito, a situação financeira pode agravar-se. O devedor pode acabar com uma prestação nova e ainda ter parte das dívidas antigas por liquidar.
O Impacto da Taxa de Esforço
Um dos principais motivos que levam as pessoas a contrair um crédito para pagar outro é a necessidade de reduzir as despesas mensais e obter um pouco de folga no orçamento. Embora isso possa ser alcançado em algumas situações, a verdadeira consequência desta decisão depende da taxa de esforço e da utilização que se faz do novo financiamento. A taxa de esforço indica quanto das receitas mensais são dedicadas ao pagamento das prestações de crédito. De acordo com as diretrizes do Banco de Portugal, o total dos encargos com crédito não deve normalmente exceder 50% do rendimento líquido do agregado familiar. Se esse limite for ultrapassado, as instituições de crédito podem recusar novos financiamentos, exceto em circunstâncias específicas.
Exemplos Práticos
Para ilustrar melhor o impacto da taxa de esforço, vejamos dois exemplos:
Exemplo 1 – Crédito Consolidado
Considere um agregado familiar com um rendimento líquido mensal de 1.900 euros, que possui dois créditos pessoais e uma dívida de cartão de crédito, totalizando 780 euros em pagamentos mensais.
- Antes do crédito consolidado:
- Créditos pessoais: 430 euros
- Cartão de crédito: 350 euros
- Depois do crédito consolidado:
- Prestação única do novo crédito: 520 euros
- Total pago por mês: 520 euros
- Taxa de esforço reduzida de 41% para 27%.
Neste caso, a taxa de esforço diminui, proporcionando maior margem ao orçamento, mas o prazo de pagamento é alargado, o que pode resultar em um custo total de juros superior no final do contrato.
Exemplo 2 – Crédito Pessoal Sem Fins Específicos
Agora, se o mesmo agregado pedir um crédito pessoal sem um objetivo específico, utilizando parte do montante para outras despesas, a situação financeira pode deteriorar-se.
- Nova prestação do crédito pessoal: 520 euros
- Cartão de crédito mantido: 350 euros
- Total mensal com créditos: 870 euros
- Nova taxa de esforço: 46%.
Aqui, a taxa de esforço aumenta, e o consumidor acumula mais dívidas, o que pode levar a um risco de incumprimento.
A Prestação Baixa Não Significa Menos Custos
Embora a redução da prestação mensal possa dar uma sensação de alívio imediato, isso não implica que o crédito se torne mais barato. Na maioria das situações, a prestação diminui devido ao aumento do prazo de pagamento, o que resulta em uma maior soma total de juros pagos ao banco. Portanto, é essencial analisar vários fatores, incluindo a TAEG, o MTIC (Montante Total Imputado ao Consumidor), o prazo e os custos de amortização antes de aceitar uma proposta.
Melhorar as Condições de Crédito
Trocar uma dívida anterior por um novo crédito só é vantajoso se as condições forem melhores. Uma nova taxa mais alta pode resultar em um aumento do custo da dívida. Esta análise é particularmente importante ao trocar dívidas de cartões de crédito, que geralmente têm taxas elevadas. O Banco de Portugal atualiza a TAEG máxima a cada trimestre, por isso é importante verificar essa informação.
Custos de Amortização
Ao liquidar um crédito antecipadamente, pode existir uma comissão de reembolso. Para crédito ao consumo, essa comissão não deve ultrapassar 0,5% do capital reembolsado se faltar mais de um ano para o fim do contrato, e 0,25% se faltar um ano ou menos. Se o contrato estiver indexado a uma taxa variável, não haverá comissão. Antes de avançar, é aconselhável pedir simulações para entender se as economias compensam os custos.
Quando Pode Fazer Sentido?
Pedir um crédito para liquidar outro pode ser uma boa decisão quando visa substituir uma dívida cara por uma mais acessível, reduzir o custo total e simplificar os pagamentos. Mesmo assim, é crucial rever o orçamento, pois se os hábitos de consumo não mudarem, o risco de acumular novas dívidas persiste.
Fale com o Banco se Estiver em Dificuldades
Se já existe dificuldade em cumprir com as prestações, é recomendável contactar a instituição de crédito antes de entrar em incumprimento. O Banco de Portugal tem mecanismos como o PARI que ajudam a encontrar soluções para evitar falhas de pagamento, como prazos alargados ou reduções temporárias da taxa de juro. No caso de incumprimento, o cliente pode ser integrado no PERSI, onde a instituição avaliará a situação e proporá soluções viáveis.